Homenagens escritas marcam a trajetória e legado de Dona Raimunda 

Dona Raimunda era quebradeira de coco e vivia em São Miguel do Tocantins. Ela faleceu na noite da última quarta-feira (7) 

CIDADES Representou cerca de 400 mil mulheres e virou referência na luta em defesa dos direitos camponeses e trabalhadoras rurais.
Fernando Oliveira/Alan Lucena/Margareth Valente/Representou cerca de 400 mil mulheres e virou referência na luta em defesa dos direitos camponeses e trabalhadoras rurais.
Daniela Souza

Daniela Souza
Quinta-feira, 08 de Novembro de 2018

“Ontem faleceu Dona Raimunda do Coco, companheira inabalável na luta popular e camponesa! Minha homenagem - Dona Raimunda do Coco, Uma palmeira se fez em minha vida. Suas palavras, sabedoria popular que reformula a intelectualidade acadêmica; luta que fortaleceu minha militância na defesa da vida; força que me faz resistir às intempéries de governos fascistas; esperança de luta que lança ao horizonte a glória dos explorados/as e oprimidos/as, anima minha fé para seguir os passos do padre Josimo. Segue adiante e diga ao Nobre Camarada, que não nos abalaremos com os dias turbulentos que se aproximam!”.  

Assim escreveu o professor e sociólogo Milton Texeira nesta manhã, após o susto de ter recebido a notícia do falecimento da ex-quebradeira de coco, Raimunda Gomes. Aos 78 anos, ela ainda participava de eventos e relatava sua luta enquanto quebradeira de coco, mulher e defensora dos direitos de camponeses, ao lado de outras mulheres.  

O vereador Aurélio de Imperatriz deixou sua homenagem: “Faleceu na noite desta quarta (7) o ícone da luta pela valorização das quebradeiras de coco: dona Raimunda Quebradeira, como ficou conhecida. Do interior do Tocantins, Raimunda foi uma das fundadoras do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que atua nos estados do Pará, Tocantins, Maranhão e Piauí”. 

Aproveitou para ressaltar sua história e a importância de sua militância para a região: “Rompeu as fronteiras do Brasil. Esteve na China, nos Estados Unidos, na França e no Canadá. Por sua determinação e militância chegou a ser indicada ao Prêmio Nobel da Paz e, além de outras homenagens, recebeu também o título de doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Tocantins (UFT)”. 

E finaliza: “Sua dedicação pelos povos extrativistas da Amazônia e por um mundo mais justo e igualitário será sempre referência. Nosso povo perpetuará a sua história! Raimunda: Presente! Raimunda: Sempre presente!”.  A jornalista, Margaret Valente, esteve com dona Raimunda no começo deste ano para entrevista-la. Em virtude da conclusão da radiorreportagem sobre o padre Josimo Tavares, ela proporcionou também o encontro entre a ex-quebradeira e dona Olinda, mãe do religioso. Segundo ela, dona Raimunda há muito tempo não via Olinda Tavares.  

“Encontrei com ela no dia 01 de maio. Era feriado. Dona Raimunda cantou e nos tratou super bem. Muito comunicativa. Foi um privilégio pra mim. Conheci ela e a dona Olinda e foi um prazer passar horas ao lado delas. Dona Raimunda disse pra mim que tinha tempo que não via Olinda. Então eu levei ela para ver a amiga”, ressalta.  

Outra memória de Margaret foi o momento em que dona Raimunda resgatou a época em que padre Josimo estava sendo ameaçado de morte. “Ela me relatou que tinha medo de matarem Josimo. Mas afirmou que mesmo assim eles não desistiam da batalha. Me disse que Josimo era um santo, pois ele fez muitas coisas pelo povoado”.  

O missionário padre Massimo Raimundo pontuou o legado que dona Raimunda e padre Josimo deixaram à igreja. “Ela foi uma grande mulher envolvida nas lutas populares dos anos 80 e 90. Aquilo que mais me chamou a atenção é a sabedoria popular desta mulher: uma mulher camponesa que tinha uma visão além dos horizontes. Tinha consciência política muito bonita, impregnada de fé em tudo aquilo que ela falava. O exemplo dela fortalece o nosso trabalho de militantes nas questões sociais. Essa grande amiga e conselheira de pe. Josimo são figuras que a nossa igreja dever resgatar e seguir”.  

Os últimos eventos que dona Raimunda participou foi em Imperatriz, na inauguração do memorial do Padre Josimo Tavares, localizado em uma das salas do Centro Pastoral Diocesano. Também marcou presença no Seminário “Minha Perna é minha classe” que ocorreu em Imperatriz, Cidelândia e São Jorge do Pará. Ela compôs a mesa de abertura do evento e relatou sua trajetória enquanto militante política e social. 

Trajetória 

O desejo esperançoso e a vontade de lutar por dias melhores, nasceu com o seu fiel amigo, Padre Josimo Tavares. Mesmo após o assassinato do sacerdote, dona Raimunda encontrou forças para lutar e fez história: Encarou grandes desafios em defesa dos direitos das mulheres extrativistas, as Quebradeiras de Coco babaçu, o que resultou na ‘Lei do Babaçu Livre’, que proíbe a derrubada de palmeiras de babaçu, e permite que as quebradeiras possam extrair o fruto das palmeiras mesmo em propriedades privadas. 

Mobilizou a criação da Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (Asmubip); a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Tocantins (Fetaet) e a Secretaria da Mulher Extrativista do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e permaneceu à frente por dez anos. 

Representou cerca de 400 mil mulheres e virou referência na luta em defesa dos direitos camponeses e trabalhadoras rurais. Em 2005 foi indicada ao prêmio Nobel da Paz, e ganhou o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Tocantins (UFT) em 2009 e 2013.  Além disso, recebeu Diploma Mulher-Cidadã Guilhermina Ribeiro da Silva, da Assembleia Legislativa do Tocantins e foi protagonista de um documentário em 2006, produzido pelo cineasta Marcelo Silva. 

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