A língua estrangeira como instrumento de conhecimento

Integrantes da prova de linguagens, as questões de língua estrangeira inglês ou espanhol seguem o mesmo método: o de priorizar interpretação de texto

EDUCAÇÃO Cada uma das questões de inglês ou espanhol abre com um gênero textual na respectiva língua.
Reprodução/Cada uma das questões de inglês ou espanhol abre com um gênero textual na respectiva língua.

Correio Braziliense
Terça-feira, 09 de Outubro de 2018

Nem só de língua portuguesa vive a prova de linguagens, códigos e suas tecnologias. Ampla e multidisciplinar, essa área de conhecimento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) exige, entre outras habilidades, a de proficiência em língua estrangeira — inglesa ou espanhola. A cada edição, cinco das 45 questões são dedicadas a essa competência, a de “conhecer e usar a língua estrangeira moderna como instrumento de acesso a informações e a outras culturas”, como prevê a matriz de referência. 

Mais do que demonstrar conhecimento gramático desses idiomas, portanto, vale colocá-lo em prática, interpretando o texto e o mundo, nos moldes das demais áreas de conhecimento. Desde 2010, quando começaram a ser aplicadas no exame, as línguas estrangeiras vêm ocupando espaço e formato semelhante na prova. “A prova é composta de cinco questões. Cada comando é em português, acompanhado de um texto de abertura no idioma estrangeiro. A gramática, propriamente, não foi cobrada. Não é a cara do Enem. O exame quer que o aluno saiba ler o texto e entender a função social dele”, afirma Andréia Novaga da Silva, professora de espanhol da plataforma on-line Stoodi.

Estudante do Centro Interescolar de Línguas da Asa Norte (CIL 2), Verinaldo Ferreira, 17 anos, mantém essa perspectiva na preparação da prova. Segundo ele, questões de interpretação de textos são as mais abordadas na avaliação. “Vi provas anteriores, nas quais vejo muito mais presente essa possibilidade.” A influência e incentivo dos professores é algo que ele, que no ensino médio faz o 3° ano no Centro Educacional Asa Norte (Cean), considera fundamental para fazer uma boa prova no Enem, especialmente na avaliação de língua estrangeira. Ao todo, são mais de três horas de estudo por dia, além de frequentar as aulas do curso +Enem, ministrado aos sábados. 

Variedade textual 

Cada uma das questões de inglês ou espanhol abre com um gênero textual na respectiva língua. Nela, o candidato encontra reportagens, peças publicitárias, crônicas, ficção, poemas e letras de canções, além de tirinhas e charges. Nada escapa à variação textual, tão típica do Enem em todos os temas.

Cada texto pode chegar até cerca de 200 palavras, segundo Rodrigo Berghahn, professor de inglês e coordenador da rede Minds. Ele faz as contas: “Sendo assim, digamos que podemos ter mais de 1000 palavras apenas nessas questões.” Não é pouco, ainda mais se levarmos em conta que, no mesmo dia, há outras 85 questões pela frente. “São cinco textos para cinco níveis de compreensão, sempre estabelecendo correlação entre o tema geral do texto e o nível de dificuldade.” 

O comando, que esclarece o que é pedido e introduz os itens, vem sempre em português. “As perguntas feitas na nossa língua são um formato bem comum e válido. Se pensarmos que o objetivo desses estudantes é chegar ao ensino superior, nada mais justo exigir deles que entendam que decifrem esses códigos, que serão usados algumas vezes na universidade”, observa Marcelo Santos, professor do Curso Poliedro e do Stoodi. 

Adinoél Sebastião, professor de espanhol do Estratégia Enem, não faz rodeios quanto à prova. “Não é uma avaliação que exija um nível tão alto a ponto de a pessoa precisar de fluência da língua. Muitos se inscrevem pensando que precisam falar, escrever e se comunicar de modo completamente desenvolto. Não chega a isso tudo. O importante é entender o mecanismo da prova e mostrar domínio básico de leitura.” 

Ainda assim, a suposta falta de preparo preocupa Beatriz Gonçalves, 18, que escolheu fazer a prova de inglês. “Foi a base que tive no ensino fundamental e médio, mas, mesmo assim, a gente não é incentivada à conversação e à leitura. É apenas aquele conteúdo bruto”, explica. A jovem, que também frequentou o CIL, faz uma comparação com o ensino tradicional e o curso.

“O CIL é mais específico. Eles cobram mais exercícios, têm uma didática totalmente diferente, e os professores estão mais dispostos a ensinar”, diz a jovem, que está no 3º ano. Beatriz acredita que questões de interpretação de texto serão mais abrangentes na prova. “Tenho essa certeza porque fiz o Enem no primeiro e no segundo ano, justamente para saber o que mais caía.”

 

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