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Uma via de mão única

Assim que nos conhecemos, Iago e eu, conversamos longamente sobre como e quando nos tornamos leitores. Talvez fosse plausível tentar responder também o porquê de gostarmos tanto de livros, de nos debruçarmos longamente sobre papéis e letras, mas eu prefiro parafrasear a Clarice Lispector, em seu livro A hora da estrela, com licença quase poética:  enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a ler. 

Iago Sousa: Descobri o prazer da leitura aos onze ou doze anos, quando cursava a outrora chamada quinta ou sexta série. Não que já não gostasse de ler; meus pais sempre me incentivaram ao hábito da leitura, e eu tinha (e tenho) verdadeira paixão pelos gibis da Turma da Mônica. Acontece que até então não havia percebido que a leitura é muito mais do que apenas diversão. 

O livro em questão, divisor de águas na minha vida de leitor, é “O diário de Lúcia Helena”, de Álvaro Cardoso Gomes. Não me recordo de grande parte do enredo, senão que a obra se passa na década de 1960, tem como protagonistas Lúcia Helena e Beto e aborda algumas questões típicas da adolescência. 

Aluno aplicado, lancei-me à leitura  do livro quando a professora de Língua Portuguesa o indicou como paradidático. Diferente de alguns colegas, que se contentavam em ler os resumos das obras, sempre gostei de lê-las todas, de mergulhar em suas histórias, de apreciar o livro também enquanto objeto que é. 

À medida que lia, me dava conta de quão prazerosa é a atividade da leitura. O livro, além de maravilhoso, me despertou para um mundo de possibilidades que até então eu não conhecia por completo. E passei a querer mais. Já não me satisfazia com os paradidáticos, que eram apenas quatro por ano; queria mais. Lembro-me de que comprei, devorei e amei o livro “A fantástica fábrica de chocolate”, de Roald Dahl.

A história de Lúcia Helena e de Beto ganha vida em outros livros além do que mencionei acima. Finda a leitura deste, corri à biblioteca da escola para procurá-los. Infelizmente não havia no acervo, mas a bibliotecária, muito prestativa, me recomendou que os procurasse na livraria. Foi o que fiz, e consegui mais um ou dois dos volumes que integram a saga. Da mesma forma, li e me apaixonei mais ainda - pela história, pelos personagens, pelo universo literário. 

Assim descobri o prazer de ler e de estar em contato com os livros. Desde então não abandonei o hábito da leitura, e hoje eles são para mim tão essenciais quanto a água e o oxigênio. Essa descoberta foi, para mim, uma via de mão única. 

Idayane Ferreira: A minha primeira lembrança em relação aos livros é muita vaga: eu com cinco ou seis anos, sentada no chão folheando um livro qualquer, mas não lembro qual. Não sei precisar se na minha casa não havia livros ou se este eram poucos, mas me recordo que a minha mãe nos lia a biblia, recordo também que havia livros na casa da minha avó paterna (talvez seja mais intuição do que lembrança, pois a minha avó foi professora por muitos anos).  A verdade é que, embora  não me lembre de como os livros entraram na minha vida, nunca esqueci como eles marcaram a minha existência, como ajudaram a moldar a pessoa que sou. A verdade é que os livros sempre estiveram aqui e nos reconhecemos assim que abri suas páginas e decifrei as letras. 

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