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O Bolsonarismo acabou?

A novela de Dias Gomes, Roque Santeiro (1985), baseado na peça do mesmo autor com o título de O Berço do Herói, era uma obra magnífica e que suscitava muitas dúvidas morais, confusões, e acima de tudo, graça com as inúmeras peripécias dos seus personagens. Entre os destaques havia o personagem principal do Roque Santeiro, que se tornava mártir e herói a partir de uma comédia de erros e, principalmente, em virtude da má intenção das elites que tinham interesse de torná-lo um personagem mitificado, com o fito de ludibriar o povo através da religião. Roque Santeiro sofreu um atentado fictício no desenrolar da história e é alçado a figura de santo popular, se fazendo de morto e tornando-se mártir com auxílio de um elenco de figuras controversas na trama novelesca.

Entre essas figuras tinha o Sinhozinho Malta, que representava as forças da elite econômica e política, que pela força do poder autoritário dominava e manipulava a política, obviamente, com o auxílio frondoso e conivência da fé religiosa. Ainda, havia a famosa Viúva Porcina, aquela que segunda a história fora sem nunca ter sido, uma vez que nunca fora casada com o Roque Santeiro, pois na verdade era amante do Sinhozinho Malta e tampouco era viúva, haja vista que o personagem principal ainda estava vivo. Esta comédia de erros, fazia a representação fiel da sociedade brasileira, com seus coronéis, poder das elites, beneplácito das instituições e, principalmente, o mau uso da fé popular com intuito de iludir, subestimar e fazer pouco caso da pobreza espiritual do ser humano.

Infelizmente, por mais desacertos evidentes que Dias Gomes demonstrava nessa novela, vemos personagens similares se desenrolar nas cenas políticas recentes, principalmente, nas últimas eleições presidenciais. Pois, tivemos também atentados com vistas a espetáculo midiático eleitoral, mobilização de eleitores motivados por ajustes de contas entre contendas políticas dispares e, muito tristemente, o mau uso da fé espiritual como instrumento político. Ainda, a fim de coroar esse funesto espetáculo político tivemos a manipulação midiática de fake news, tal e qual a obra de Dias Gomes, disseminando mentiras e criando a edificação de personagens extremamente controvertidos como mito do herói salvacionista.

A luz do diálogo com a literatura e buscando fazer uma conexão intertextual com a política, podemos ver esses personagens materializados na política atual, bem como analisar como se deu os resultados eleitorais com a obra de Dias Gomes: uma comédia de erros. Temos o personagem principal desse cenário que foi guindado ao cargo de Presidente, sem nunca ter tido uma carreira relevante como político e tampouco uma trajetória brilhante nas forças armadas, uma vez que foi reformado com apenas 15 anos de serviço e na patente de capitão, após uma controvertida ação dentro das instituições armadas em que fora investigado.

Não obstante todas as contradições da sua trajetória pessoal, iniciou uma surpreendente, e ao mesmo tempo débil, carreira pública, uma vez que durante os seus 26 anos de Congresso Nacional aprovou somente duas leis sob sua autoria. Mas, para se eleger como Presidente soube manejar com maestria fake news e associar-se com denominações religiosas conservadoras, a fim de construir para si o epiteto de Mito. Porém, após os dois primeiros meses de governo saiu a primeira pesquisa (MDA/CNT) de avaliação presidencial e Bolsonaro recebeu como resultado a aprovação mais baixa de todos os presidenciáveis, desde que as pesquisas começaram a ser realizadas: apenas 38,9 % o consideram como bom ou ótimo. Talvez, esse seja um indício de que o Bolsonarismo acabou e que ao invés de se consolidar como mito autointitulado venha a ser coroado apenas como um blefe político, assim como na obra de Dias Gomes, haja vista que foi sem nunca ter sido.

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