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Marielle vive: presente!

Alguns personagens quando morrem se tornaram mais vivos do que quando estavam presentes entre nós, assim como a sua simples imagem iconográfica se tornam símbolos e portadoras de mensagens, com vistas as denúncias contra Estados autoritários. Tivemos no século XX emblematicamente a figura de Che Guevara, que ao tentar fazer uma revolução continental na América Latina foi preso e, posteriormente, assassinado pelos seus algozes. A imagem de Guevara morto, como um troféu de guerra imperialista na latino-américa teve o efeito justamente contrário, pois o converteu em ícone do século XX na luta contra a opressão dos povos, bem como o tornou exemplo para uma geração que sonhou com a transformação da sociedade, através da luta contra as ditaduras militares.

Neste início do século XXI tivemos o infortúnio do ocorrido com a vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, que fora assassinada por milícias criminosas que tentaram calar a sua voz; porém, tendo um reflexo totalmente contrário, pois Marielle está mais viva do que nunca. A figura de Marielle rapidamente transformou-se nesses símbolos vivos contra a impunidade e contra todas as formas de opressões, uma vez que ela reunia em si todas as características que essa onda neoconservadora quer forçosamente destruir: mulher negra, homossexual, favelada, mãe solteira e revolucionária.  No desenrolar das investigações pairam dúvidas se o crime contra Marielle foi de ódio, em virtude dessas características pessoais, ou crime de motivação política, pelo fato dela ser uma grande ativista dos direitos humanos nas denúncias contra as milícias cariocas.

Quanto ao esclarecimento de quem a assassinou, vemos que o campo das milícias são um terreno extremamente macabro e que, infelizmente, infectou todo o tecido social do Rio de Janeiro como se fosse uma metástase. Antes no Rio tínhamos a contravenção folclórica do jogo do bicho, que era associado com escolas de samba no imaginário popular; depois suplantada pelo narcotráfico, até serem ultrapassados pelas milícias urbanas, numa ligação espúria entre a política e as forças de segurança pública. O mais escandaloso desse processo é o próprio Estado do Rio de Janeiro ser associado a essas milícias, haja vista que muito dos contraventores milicianos serem agentes da polícia e que, muitas vezes, estão lotados em gabinetes de deputados cariocas.

Essa doença infeciosa alastrada entre milícias, estado do Rio, política e polícia está se tornando a tônica da atual configuração do mundo político carioca, como podemos ver claramente em virtude da condenação e prisão de quase todos os ex-governadores do Rio, assim como a prisão de vários deputados da ALERJ.  Vemos as denúncias na mídia acerca do modo que esses milicianos e seus familiares encontram-se lotados em gabinete desses deputados, associando o denominado Escritório do Crime miliciano com o nome de alguns parlamentares. Ainda, pesa contra esses parlamentares as homenagens que fazem na ALERJ a esses contraventores, num grave escândalo para a sociedade brasileira.

Esses braços frondosos corroem além a política, especialmente, também a força de segurança pública, haja vista que os assassinos de Marielle foram informados antecipadamente por comunicações vazadas e estavam tentando evadir para escapar, quando o cerco se aproximava. Ainda, essas ligações espúrias se multiplicam e chegam até a família Bolsonaro, uma vez que, conforme amplamente divulgado, o senador Flávio Bolsonaro acolhia familiares de milicianos do Escritório do Crime no seu gabinete. A fim de romper com esse ciclo vicioso e denunciar esse mundo terrível, a figura de Marielle encontra-se mais real do que nunca, tornando-se um símbolo contra a opressão e como porta-voz viva na luta por um mundo melhor: Marielle Presente!

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