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Apesar de você amanhã há de ser outro dia.

De acordo com as primeiras estrofes da música Apesar de Você, de Chico Buarque, ele informava de pronto o seguinte: “Hoje você é quem manda; falou, tá falado; não tem discussão, não”. Ou seja, num claro recado de que vivíamos num governo policialesco e ditatorial – eram os ventos obscuros e sinistros da sanguinária ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) que mandava no país, pois nada poderia ser dito e estávamos sumariamente bloqueados sob censura. Naquele cenário macabro, qualquer ato contra o governo ditatorial era passível de tortura, prisão indevida, morte e desaparecimento do preso com ocultação de cadáver – tristes memórias.  

            Infelizmente estes ventos sombrios parecem rondar novamente o Brasil atualmente, principalmente, quando se faz homenagens a torturadores, com o intuito de bravata e vingança para quem foi vítima do regime militar. Refletimos nesse contexto, especialmente, na dor incomensurável das famílias que tiveram filhos como desaparecidos políticos, ou mesmo dos milhares de presos políticos que foram mutilados sob tortura, carreando para a sua vida marcas permanentes. Conforme reconhecimento internacional, todos sabemos que a tortura é um crime de lesa-humanidade, portanto, nunca devemos esquecer e nunca devemos perdoar – devemos sim caminhar para uma concórdia nacional, desde que os torturadores sejam punidos, haja vista o caráter imprescritível dos seus crimes.

            Devemos refletir por qual razão os crimes de lesa-humanidade foram julgados e penalizados em todo o mundo, mas somente no Brasil foram abrandados, como se nada tivesse acontecido; pior ainda, como se a dor do outro não fosse importante. Pegamos como comparação os crimes do nazismo que foram condenados pelo Tribunal de Nuremberg, assim como os crimes das ditaduras chilenas e argentinas, que condenaram à prisão perpétua os seus ditadores-generais. Infelizmente aqui no Brasil, esses ditadores-generais, que se alojaram na presidência da república usurpando o cargo de chefe de executivo, ainda ganharam nome de ruas, praças e foram homenageados como Presidentes legítimos do Brasil: fato este extremamente gravoso, uma vez que não foram eleitos para tal cargo.

            Trocando em miúdos, ocorre apenas no Brasil, como único lugar no mundo, que torturadores psicopatas estão livres e caminham lado a lado na calçada com seus torturados, como se nada tivesse acontecido. Tais atos afrontam as comissões internacionais de Direitos Humanos, bem como a legislação internacional que indica um protocolo que o Brasil deve seguir para os casos dos crimes da ditadura civil-militar: perdoar não é esquecer, assim como conciliar não é deixar torturador impune. Portanto, a sociedade civil deve manter sempre este exercício de construir uma política efetiva da memória, igualmente, cobrando das instâncias governamentais que se cumpram os atos internacionais e dando conta das ações que foram impetradas arbitrariamente contra os direitos humanos, no período da ditadura militar.

            Reiterando a reflexão, porque motivo no mundo todo os criminosos em períodos de exceção foram condenados, exceto no Brasil? Talvez, as respostas sejam as mesmas que explicam porque o Brasil é tão insensível com a fome alheia, com as crianças órfãs, com os velhos desamparados por uma previdência social injustiça, etc: a dor do outro é irrelevante, uma vez que egoisticamente se pensa apenas no próprio umbigo. Ou seja, tais análises e explicações mostram o real motivo do porquê ainda somos um país subdesenvolvidos, pois somos incapazes de pensarmos coletivamente um projeto de nação – porém, como na música, ainda cremos que amanhã vai ser outro dia e que talvez acordamos!

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