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A cruzada moral do homem não cordial

Na década de 30 o célebre historiador Sergio Buarque de Holanda lançou uma obra fundamental para a compreensão do espírito brasileiro, Raízes do Brasil, um dos pontos altos do seu livro é conceito do homem cordial. A respeito desse argumento demonstrava o quanto o povo brasileiro é realmente pouco cordial, como se a máscara das cordialidades fosse usada sobre duas situações: 1) para o mundo externo; e, 2) para o uso interno da sua família. Melhor explicando, a cordialidade poderia ser usada para externar bom comportamento ao mundo social, como se o brasileiro padrão fosse um ser polido e adestrado para o bom viver, igualmente, poderia utilizar o artificio da cordialidade para os seus entes queridos – numa clara distinção para os que não fossem da sua família.

            Obviamente que tais conceitos requerem bem mais estudo, uma vez que fora escrito no calor das horas da década de 30, momento este que a intelectualidades do período tinha uma pretensão de construir um painel do mito fundador do povo brasileiro. Outros autores também trabalharam com o intuito de construir esse painel, são chamados de primeira geração de Formadores do Pensamento Social Brasileiro, entre esses podemos destacar: 1) Gilberto Freire com a obra, Casa-Grande e Senzala, aludindo ao mito da democracia racial brasileira; e 2) Caio Prado Junior, com a obra, A Formação do Brasil Contemporâneo, evidenciando as origens históricas e econômicas da construção do Brasil.

            Essa historiografia cunhada nesse período, além do tentar uma explicação de como se formara o Brasil, ainda tinha a pretensão de apontar pistas para o futuro da nação, como se pudesse indicar um porvir a partir da correção dos erros históricos – alguns livros com mais críticas; já outros de forma muito velada e escamoteada, por exemplo, como a deficiência de Gilberto Freire em apontar o racismo estrutural na formação do Brasil. Esses livros serviram de premissa básica e ponto de partida para novos estudos a serem explorados, ou seja, como obras basilares que inauguram a forma de pensar o Brasil através de recursos técnicos e acadêmicos mais delineados, usando autores e teorias importadas para construir um painel do Brasil.

            Poderíamos dizer que houve, muitas vezes, um ajuste forçado na teoria europeia ao suor dos trópicos brasileiro, com categorias exógenas que muitas vezes não se aplicavam ipsis litteris àquelas situações. No entanto, servem, conforme realçado, como desbravadores das explicações do porquê o Brasil se forjou desse modo e quais foram as heranças que moldaram o espírito do povo brasileiro. Realçamos que é justamente essas advertências que, talvez, não foram bem estudadas pela academia, bem como foram extremamente mal reelaboradas pelo senso comum, na medida que inverteram conceito prontos e sem criticá-los: nós brasileiros somos um povo extremamente cordial e no Brasil não há racismo.

            Podemos ver a desconstrução desses conceitos na prática, principalmente, com o racismo latente que assassina a população negra e, igualmente, pelo alto grau de desemprego dessa população, evidenciando a herança maldita do período escravista. Quanto ao homem cordial, seria uma expressão, de fato, apenas para inglês ver, haja vista que somos um país extremamente violento e ainda escolhemos a tortura, o assassinato e as prisões arbitrarias como forma de eliminar possíveis opositores. Fechando a análise, ainda podemos refletir o quanto não somos cordiais quando impedimos a publicação de livros na Bienal do Rio de Janeiro, somente pelo fato que as obras não estão de acordo com certas expressões religiosas e morais. Em síntese, podemos afirmar que o homem cordial é realmente um mito, uma vez que apenas mascara as faces odiosas do próprio preconceito reiteradamente vivido no Brasil.

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